Sobre boletos, cansaço crônico e a arte diária de continuar mesmo sem entender
Às vezes eu penso que a vida poderia vir com um manual. Ou pelo menos com um botão “reiniciar dia”, igual ao videogame. Mas não: ela prefere vir com boletos, imprevistos e aquela pessoa que te manda mensagem só quando precisa — sempre no pior momento possível, claro.
Crescer me ensinou que a vida adulta é basicamente um grande tutorial de “como fingir que entendeu o que está acontecendo”. Porque ninguém entende nada. Ninguém. Todo mundo só adivinha e torce para dar certo. Tipo cozinhar sem receita, só que ao invés de um bolo que pode murchar, é a sua sanidade emocional que vai para o forno.
Teve dia que acordei com vontade de ser minimalista. Jogar tudo fora e recomeçar. Aí lembrei que quem paga meus boletos sou eu e eu tinha três reais na conta. Passou.
Também percebi que sempre tem alguém dizendo: “você precisa descansar”. Eu penso: ótimo, eu adoraria. Só falta a parte do universo colaborar, né? Porque quando eu finalmente paro, a vida vem com outra tarefa, outra cobrança, outro problema que decidiu nascer do nada como se fosse mato.
Mas sabe o que é bonito? Nada. Mentira, tem coisas sim. Tipo, quando a comida chega rápida, quando o cachorro te olha com aquela cara de “você é incrível”, quando você encontra dinheiro no bolso ou quando o pix cai. Esses instantes me seguram na fé.
E, no fim das contas, sobreviver já é um talento. Um talento subestimado, inclusive.
Então eu sigo aqui: um pouco cansado, um pouco cínico, totalmente desorganizado, mas vencendo. Por quê, sinceramente? Se a vida não vai facilitar, eu também não vou facilitar para ela.



